Freqüentemente, o
dependente químico, enquanto usuário ativo e
consumidor abusivo do álcool ou outras drogas,
demonstra através de seus repetitivos
movimentos, que ele “precisa” dessas substâncias
para se manter física e psicologicamente. Na
verdade, esta postura do “eu preciso” é o que o
reforça a ser escravo das mesmas. Muitos
chegam a ir mais além, transformando o “eu
preciso” por “eu necessito”, como se a droga
fizesse parte de suas necessidades e prioridades
básicas de sobrevivência, como respirar, comer,
etc., passando assim a acreditar e reforçar o
seu próprio desamparo diante de si, diante dos
outros e diante da vida.
A partir do momento em
que entra para o processo de recuperação,
transforma o “eu preciso” ou “eu necessito” para
o “eu não posso”. “Eu não posso beber, eu não
posso me drogar”. Neste momento, ao aceitar sua
limitação e impotência diante dos químicos
renova todo o seu movimento de dependente e
escravo para uma opção mais corajosa e mais
digna, passando automaticamente para outro
momento ou etapa do “eu não vou”. “Eu não vou ao
bar, eu não vou beber, eu não vou me drogar.”.
Começa a perceber diante de si um novo processo
até então desconhecido por ele: o poder da
escolha.
“Eu escolho ficar abstinente, eu escolho por
minha recuperação, eu escolho pela sobriedade.
Escolher, ainda que seja entre dois movimentos
difíceis naquele momento, o faz sentir forte e
responsável por suas próprias ações e por sua
própria vida. E com esta responsabilidade em
suas mãos, percebe dentro de si um poder maior,
ou seja, o poder da recusa, resgatando a
prerrogativa humana da vontade e sua
determinação na conquista da sobriedade.
E assim, sente cada vez mais a capacidade e
possibilidade real em estacionar sua doença,
suspirando e desejando por sua recuperação.
A partir daí entra em contato com algo ainda
bem mais intenso.
Experimenta, possivelmente, pela primeira vez
o seu “querer”. Eu quero a recuperação, eu quero
a minha libertação. E se até então vivia apenas
os benefícios da abstinência e do estar “limpo”,
agora sim, sente o grande prazer e o gozo da
sobriedade.
Na verdade, todos esses momentos convergem
para um mesmo ponto: a responsabilidade em
assumir suas próprias escolhas, ações e
sentimentos, comandando agora a sua própria vida
sem precisar de nenhuma substância externa para
isso. Liberta-se de suas “falsas” crenças,
aproximando-se de si e finalmente chegando ao
ápice de sua recuperação: “Eu não preciso”. “Eu
não preciso beber, eu não preciso me drogar para
conduzir minha vida e sentir-me feliz”. Posso
viver com determinação, alegria, coragem,
experimentando a vida de um jeito “sereno” e
sóbrio.
Este, sem dúvida, é o melhor caminho para
quem está bem e em paz consigo mesmo e com o
mundo a sua volta, sentindo-se uma intensa
sensação de plenitude, capacidade e força.
É a postura de quem
quer viver e gozar a imensidão de um universo
com seus inúmeros desafios e prazeres, como se
entrasse em um verdadeiro êxtase de escolha,
renovação, dignidade, sobriedade e acima de
tudo, responsabilidade. Reintegra sua
auto-estima, seu auto-respeito e, por mais
incrível que possa parecer, vai se transformando
em uma nova pessoa, emocionalmente madura e
espiritualmente evoluída e ainda que tenha
caminhado por trechos tão difíceis e pedregosos,
descobre que a recuperação pode ser vivenciada
com alegria, sabedoria e porque não dizer, com
grande prazer.
E de peito aberto vai seguindo, se abrindo,
enfrentando vigilante a sua nova vida, sem
pressa, pouco a pouco, a cada dia e a cada 24
horas.