Dependência Química                             ®               Marília Teixeira Martins 

                                         Sonhando Acordado ®                                        Zezinho Birigote VI

Por Marília Teixeira Martins

Fui para o meu quarto e fiquei na maior expectativa do meu pai ler os folhetos que eu trouxe.

Por isso nem pisquei os olhos a noite inteirinha. Pensei que se eu os piscasse, pelo menos uma vez, eles iam querer continuar fechados a noite até de manhã, então eu segurei firme!

Aproveitei para pensar um pouquinho sobre o que eu iria escrever no concurso de redação que vai ter em todas as escolas públicas e particulares de Belo Horizonte. O tema é livre e eu vou poder escrever o que eu quiser. Êbaaa!!!! É um concurso pra lá de legal e se eu escrever bem direitinho e conseguir tirar o primeiro lugar, vou ganhar um computador novinho em folha, com impressora colorida e tudo.

Pensei tanto que minha cabeça ficou até zonza e os meus olhos ardendo parecendo que estavam cheios de areia. Deve ser porque eles queriam dormir e eu não deixei, né?

Bom, depois de uma certa hora, olhei para a janela e vi o dia me dar bom dia.

Será que meu pai já leu os folhetos? Perguntei pro Sol. Mas, como sol não fala...

Saí bem devagarzinho do quarto e levei um baita susto quando vi meu pai de cabeça baixa, deitado por cima dos seus braços cruzados, em cima da mesa. E os folhetos abertos debaixo dos braços dele. Então eu o chamei bem baixinho:

-Paiê...Paiê...
Ele levantou a cabeça e vi que seus olhos estavam bem vermelhos. Acho que esta foi a primeira vez na minha vida que eu vi o meu pai chorar.

Ele então abriu seus dois braços bem abertos e me deu um super abraço. Este foi o quinto abraço que dei no meu pai até hoje. Mas, foi um abraço tão forte que valeu por toda a minha vida!

Ninguém disse nada. Nem eu e nem ele. Só choramos...Um tempão! Depois, meu pai me deu um beijo que molhou toda a minha bochecha e me disse assim:

- “Filho, deixa disso. Eu não sou doente não! Eu paro de beber quando eu quiser. Eu estou bebendo um pouco mais agora porque estou sem emprego e isso me deixa muito nervoso. Mas, hoje mesmo vou procurar um emprego. Aí você vai ver, eu nem vou beber mais, eu prometo!

Eu dei um beijo nele também e disse:

- Mas como o senhor vai arrumar emprego bebendo tanto assim, pai? 

Ele abaixou os olhos e não me respondeu mais nada. Acho que ficou com muita vergonha, né? Aí eu disse a ele que eu ia ao banheiro fazer xixi e que já já eu voltava para a gente conversar mais um pouquinho.  Eu queria falar tantas coisas...

Mas, quando eu voltei meu pai já não estava mais lá. Deixou os folhetos em cima da mesa e saiu de novo. Será que ele foi procurar a sala de AA? Perguntei a mim mesmo todo confiante.

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