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Uma carta aos adictos
Meus 50 anos em 12 Passos
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Por Marília Teixeira Martins -
01/02/2009
Muita gente me
questiona, como posso entender o que se passa na alma, no “coração” e na
cabeça de um dependente químico, sendo eu apenas uma profissional de
saúde e não pertencer a nenhum grupo de mútua-ajuda. E a cada pessoa
que me dirige essa pergunta, deixo como resposta uma reflexão ou outra
pergunta:- Então, para ajudar um hipertenso, preciso ser também
hipertensa? E a quem possui o transtorno bipolar de humor ou quem sofre
de depressão, bulimia, anorexia ou até mesmo de esquizofrenia? Para
compreendê-los e ajudá-los preciso de fato também ser portadora desses
diagnósticos?
E hoje, aos meus 50 anos
de vida, acrescento à minha resposta os 12 Passos de Alcoólicos
Anônimos, uma bela filosofia de vida que tive o prazer em conhecer e
vivenciar, ainda que não alcoólica e/ou adicta.
Bill e Bob me foram
apresentados há algum tempo, através da literatura específica de
Alcoólicos Anônimos; e quando entrei em contato com suas primeiras
linhas algo novo me aconteceu. E a cada passo, dos 12 descritos, que eu
lia e percorria, me vinham respostas precisas e exatas para um
emaranhado de sentimentos que eu experimentava naquele momento de minha
vida. Como se eu vivenciasse um novo despertar, que somado ao o que o
mundo científico me apresentava, a vida me pareceu bem mais simples do
que eu imaginava, e por isso mais bela.
Os 12 princípios me
apontavam uma direção, como uma bússola que não deixa seu navegante em
alto mar se desviar de sua rota.
E fui seguindo, ora para
o Sul, ora para o Norte, mas com tranqüilidade e leveza, na certeza de
que eu havia descoberto um tesouro. Encontrá-lo era uma questão de
tempo. Bastava seguir aquela rota, aquele mapa que caiu em minhas mãos
e me tornaria uma pessoa mais rica em sabedoria e direção. E assim fui
eu, em busca deste tesouro, passo a passo, e no meu ritmo. E nos
caminhos mais escuros e sombrios, fazia uma pausa, desligava o barco e
descansava, me contentando apenas em receber o leve toque de uma brisa
em meu rosto.
Há poucos meses
completei 50 anos de vida. Uma idade que me faz relembrar com
intensidade alguns momentos que vivenciei. E nesta rede de lembranças
peguei-me refletindo sobre um sentimento em especial: o sentimento de
impotência. Impotência diante da minha idade que avança a cada dia,
impotência diante do outro e de suas escolhas, diante da morte de um
ente querido, diante de um amor que se foi ou diante de um caminho
escolhido e percorrido por um filho.
Por quantas vezes, cometo
os mesmos erros esperando resultados diferentes? E do alto de
minha arrogância, preciso me curvar e acreditar humildemente que eu não
preciso caminhar sozinha e que, acima de mim existe um Poder Maior que
pode devolver-me a “sanidade”, às vezes perdida. ( Einstein dizia:
“Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma
coisa dia após dia e esperar resultados diferentes).
Por quantos momentos em
minha vida, me esbarro no limite do possível e preciso acreditar e
contar com o impossível, me embriagando de esperança e fé, acreditando e
entregando as minhas vontades e minha vida aos cuidados de Deus, o único
que com o seu infinito Amor me acolhe, me protege e me transforma a cada
dia, a cada 24 horas.
E ao longo dessa minha
caminhada me pergunto: quantas pessoas eu feri, magoei, fiz e faço
sofrer, mesmo que de forma não intencional? Por quantas vezes sou
teimosa, imatura, mesquinha e imperfeita? E para me transformar em uma
pessoa melhor, é preciso me renovar, revendo e reaprendendo o real
significado do exercício do perdão, admitindo e reconhecendo meus erros
e minhas falhas, procurando transformá-los em futuros acertos. E àqueles
mais profundos, enraizados e sombrios, pedir humildemente a Deus que os
remova e me livre de minhas imperfeições.
Por quantas vezes,
preciso vestir-me com a roupa da humildade e da sensatez e me propor a
reparar danos causados a mim, a um filho, a um pai, a um professor, a um
paciente, a um amigo e até mesmo a algum desconhecido?
Por quantas noites me
recolho em meu quarto, em meu canto e faço uma retrospectiva pessoal e
destemida de meus atos e comportamentos, me propondo prontamente a
admitir e reparar meus erros? E é assim, dessa forma, que vou aprendendo
a me relacionar intimamente comigo mesma, com os adictos e
principalmente com Deus, rogando a Ele todos os dias, através de
orações, preces, meditações e principalmente, através da leitura de Sua
palavra, que me mostre sua vontade e me dê forças para alcançá-la.
E hoje, só por hoje,
procuro levar e transmitir tudo o que aprendo a outro ser humano,
através de meus conhecimentos científicos, através das minhas
experiências e vivências, através da minha caminhada cristã ou mesmo
através de uma borboleta ou de um passarinho, que por acaso, adentram na
janela de minha sala à procura de uma saída e em busca da liberdade
perdida. Procuro levar a toda pessoa, adicta ou não, a mensagem de que
esses 12 princípios e passos do A.A., com certeza nos tornam pessoas
melhores, mais sensíveis, mais felizes e porque não dizer, mais sábias e
libertas, a cada dia, a cada 24 horas.
E é desta forma,
seguindo-os e aplicando-os primeiramente em minha vida, baseando-me na
Palavra viva de Deus e associando-os aos meus conhecimentos científicos
e técnicos que, mesmo não sendo adicta, posso olhar, escutar e
compreender de forma empática, o que um dependente químico traz em seu
coração e em sua alma e, junto com ele redescobrirmos um novo estilo de
vida e um jeito diferente e saudável de viver.
Na verdade, este relato,
diferente de outros que já escrevi, não deve ser considerado um artigo
propriamente dito e sim um texto, fruto de uma auto-reflexão baseada não
só em minha experiência pessoal e espiritual, como também em alguns
estudos técnicos e científicos.
Carl Gustav Jung
(Psiquiatra Suíço, fundador da Psicologia Analítica), por exemplo, em
meados de 1934 passou a acreditar que o dependente químico necessita
de um relacionamento com Deus para sua libertação dos químicos,
admitindo assim que apenas a sua abordagem analítica não era suficiente
para o tratamento da dependência química.
“Em 1961, Bill Wilson e
Carl Jung trocaram cartas a respeito do papel de Jung na formação de
Alcóolicos Anônimos. O próprio Bill nunca deixou de insistir que o
“fundador primordial” de A.A. foi Carl Gustav Jung, que plantou as
raízes de A.A. alguns anos antes da famosa reunião entre Bill & Bob em
Akron, Ohio, em 1935.”
Em uma dessas cartas
para Bill Wilson em Janeiro de 1961, Jung escreveu, em referência a um
paciente de nome Roland H, que ficou sob os seus cuidados clínicos em
1931.
...”Sua fixação pelo
álcool era o equivalente, num grau inferior, da sede espiritual do nosso
ser pela totalidade, expressa em linguagem medieval, pela união com
Deus.”...
...”Veja você que
“álcohol” em latim significa “espírito”; no entanto, usamos a mesma
palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para
designar o mais depravador dos venenos.
“A receita então é
“spiritus” contra spiritum”.
Referências Bibliográficas:
1. O caminho dos 12
passos – Tratamento de dependência de álcool e outras drogas – John
E. Burns – Edições Loyola – 2ª edição
2. Alcoólicos Anônimos na
Bahia:
http://www.aabahia.org.br/billjung.htm
Murray
Stein (Murray Stein, Ph.D. é um
Analista de formação na Escola Internacional de Psicologia Analítica, em
Zurique, na Suíça.
His most recent publications include
The Principle of Individuation, Jung’s Map of the Soul
, and
The Edinburgh International Encyclopaedia of Psychoanalysis
(Editor of the Jungian sections, with Ross Skelton as General Editor).
Ele internacionalmente palestras sobre temas relacionados com a
Psicologia Analítica e suas aplicações no mundo contemporâneo.) faz
também uma referência às cartas trocadas entre Carl Jung e Bill Wilson
em seu livro “Jung – O mapa da alma – Uma Introdução”:
“Quando Bill Wilson,
co-fundador dos Alcoólicos Anônimos, escreveu a Jung em 1961 e o
informou sobre o ocorrido com Roland H. (um paciente a quem Jung tinha
tratado por alcoolismo no começo da década de 1930), Jung o respondeu
admitindo que o terapeuta é essencialmente impotente ao tentar vencer a
dependência de um paciente de uma substância. Jung dizia – na minha
paráfrase de sua carta – “Você precisa de um símbolo, de um análogo
que atraia a energia que foi para a bebida. Tem que encontrar um
equivalente que seja mais interessante do que beber todas as noites, que
atraia o seu interesse mais do que uma garrafa de vodca”.
Um símbolo poderoso é
requerido para provocar uma importante transformação num alcoólico, e
Jung falou da necessidade de uma experiência de conversão.”
Referência Bibliográfica:
Jung – O Mapa da Alma –
Uma Introdução – Murray Stein – Editora Cultrix - 2000
E agora, termino este
relato parafraseando o texto de James Agrey, a Parábola da Águia, tão
conhecido por todos nós. Às vezes sinto que Deus me entregou a missão de
descobrir águias e fazê-las acreditar que podem voar. Umas aprendem mais
rápido do que outras e já estão alçando vôos tão altos que já não as
avisto mais. Outras, mostram suas tentativas com tanto empenho e
dedicação que não demoram muito e já se arriscam a dar os primeiros vôos
bem sucedidos. Caem às vezes, mas não se acomodam. E assim que se
recuperam arriscam mais um vôo, tornando-se tão aptas quanto às
primeiras. E algumas demoram um pouco mais do que as outras. Talvez por
sentirem medo de se arriscarem e descobrirem a imensidão do universo com
todas as suas possibilidades. E são com estas que Deus de uma forma
muito suave, gentil e respeitosa, me retira de cena. De alguma forma que
desconheço, faz com que estas águias olhem para cima, além dos limites
estabelecidos por “muros ou cercas” e as fazem descobrir que acima de
suas cabeças existe um sóbrio universo e é por ali, olhando para cima e
permitindo a Sua ajuda e a Sua presença que podem se libertar. Nestes
casos, literalmente saio de cena, de forma humilde e obediente para que
apenas Deus realize Sua grandiosa obra! Por isso, muitas vezes é
necessário admitir e reconhecer minha impotência diante de alguns
adictos e dizer “não” às minhas vaidades, ao meu orgulho, aos meus
caprichos e desejos onipotentes. E neste percurso, me deparo mais uma
vez com a mensagem que às vezes teimosamente insisto em não seguir: que
preciso escutar e obedecer a Deus acima de qualquer coisa. E entendo
que é assim, que alguns adictos finalmente levantam seus vôos mais altos
e necessários, passando a acreditar que para se transformar em uma águia
basta apenas o desejo em sê-la. E que é preciso abrir mão de alguns
lugares, de alguns amigos e voar acompanhado de outras águias, rumo ao
mesmo objetivo. E só depois que alçarem vôos bem altos e seguros que
conseguirão ajudar o outro, realizando assim o 12º passo que os grupos
de mútua-ajuda sugerem e ensinam.
Se viverei mais 50 anos,
não sei. Mas é com o coração encharcado de gratidão e como cristã que
sou, que me dirijo a Deus neste momento e neste dia, agradecendo a Ele
por ter me dado o privilégio de poder estar aqui durante tantos anos!
Obrigada Senhor, por Suas palavras que me transformam e me fazem
renascer a cada dia.
Obrigada Jung por me
fazer compreender, acreditar e aceitar que só a Ciência não basta e que
é preciso algo mais.
Obrigada Bill e obrigada
Bob, que com um verdadeiro espírito de união, solidariedade,
desprendimento e amor ao próximo, me “apresentaram” e me deixaram uma
linda e funcional filosofia que me norteia a cada dia, mesmo não sendo
alcoólica e/ou adicta. Obrigada por me “emprestarem” estes 12 princípios
e passos, hoje já incorporados e gravados em minha alma.
Só por hoje eu os
agradeço eternamente e levanto um brinde à sabedoria e à vida.
E a você adicto, deixo o
meu carinho e a certeza de que o vôo é possível sim, desde que você se
permita.
É...não existe vôo mais
seguro e mais alto do que o vôo na presença de Deus!!
Então, voa adicto... voa
em busca de sua liberdade, sobriedade e de sua recuperação!
E um feliz vôo! Deus o
abençoe.
Com carinho e amor, Marília
“Concedei-me Senhor a
serenidade necessária, para aceitar as coisas que não posso modificar,
coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir uma
das outras.”
Video: Universo Adicto ®
Marília
Teixeira Martins Video: Universo Adicto______________

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