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Apresentação :
sou
psicóloga atuando também na área de
Dependência Química, tema que
sempre me
fascinou. E falar sobre ele eu
sei, exige cautela. Por outro lado,
tornou-se um desafio em minha vida.
Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema
me escolheu. Mas, porque e para que?
Confesso que durante muito tempo, busquei
respostas para esta indagação pessoal, e por
mais incrível que possa parecer, ainda não
as encontrei. Resolvi então, aceitar,
me entregar ao “chamado” e agir.
Criei
este site como o resultado direto de uma dessas ações. E
agora, uma ousadia ainda maior: a publicação deste livro
com alguns artigos já divulgados. Um desafio, um sonho,
uma realidade.
Trabalho com o dependente químico desde
sua rendição e pedido de ajuda, passando por seu
processo efetivo de recuperação e pela constante sombra
da recaída... Até sua libertação dos químicos.
Enfim, por sua incessante busca de crescimento e de
reencontro consigo mesmo.
Como
uma criança que nasce e passa por vários estágios até
seu completo caminhar, o dependente químico que quer
vencer alcança sua sobriedade e recuperação.
Resgata tudo e todos que perdeu em função de uma doença
tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”,
abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em
“escolher”.
Conheço
de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos
que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles
que ainda não optaram mas estão a caminho, o meu
profundo respeito e admiração.
Marília Teixeira Martins (21/06/2006)
-
Psicóloga Clínica -
Reg:3145/04 - Insc:30/02/1982
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O grande prazer da recuperação
®
Por Marília Teixeira Martins
Freqüentemente, o dependente químico, enquanto usuário ativo e
consumidor abusivo do álcool ou outras drogas, demonstra através
de seus repetitivos movimentos, que ele “precisa” dessas
substâncias para se manter física e psicologicamente. Na
verdade, esta postura do “eu preciso” é o que o reforça a ser
escravo das mesmas. Muitos chegam a ir mais além, transformando
o “eu preciso” por “eu necessito”, como se a droga fizesse parte
de suas necessidades e prioridades básicas de sobrevivência,
como respirar, comer, etc., passando assim a acreditar e
reforçar o seu próprio desamparo diante de si, diante dos outros
e diante da vida.
A partir do
momento em que entra para o processo de recuperação, transforma
o “eu preciso” ou “eu necessito” para o “eu não posso”. “Eu não
posso beber, eu não posso me drogar”. Neste momento, ao aceitar
sua limitação e impotência diante dos químicos renova todo o seu
movimento de dependente e escravo para uma opção mais corajosa e
mais digna, passando automaticamente para outro momento ou etapa
do “eu não vou”. “Eu não vou ao bar, eu não vou beber, eu não
vou me drogar.”. Começa a perceber diante de si um novo processo
até então desconhecido por ele: o poder da escolha. “Eu escolho
ficar abstinente, eu escolho por minha recuperação, eu escolho
pela sobriedade. Escolher, ainda que seja entre dois movimentos
difíceis naquele momento, o faz sentir forte e responsável por
suas próprias ações e por sua própria vida. E com esta
responsabilidade em suas mãos, percebe dentro de si um poder
maior, ou seja, o poder da recusa, resgatando a prerrogativa
humana da vontade e sua determinação na conquista da sobriedade.
E
assim, sente cada vez mais a capacidade e possibilidade real em
estacionar sua doença, suspirando e desejando por sua
recuperação.
A partir daí
entra em contato com algo ainda bem mais intenso.
Experimenta,
possivelmente, pela primeira vez o seu “querer”. Eu quero a
recuperação, eu quero a minha libertação. E se até então vivia
apenas os benefícios da abstinência e do estar “limpo”, agora
sim, sente o grande prazer e o gozo da sobriedade.
Na verdade,
todos esses momentos convergem para um mesmo ponto: a
responsabilidade em assumir suas próprias escolhas, ações e
sentimentos, comandando agora a sua própria vida sem precisar de
nenhuma substância externa para isso. Liberta-se de suas
“falsas” crenças, aproximando-se de si e finalmente chegando ao
ápice de sua recuperação: “Eu não preciso”. “Eu não preciso
beber, eu não preciso me drogar para conduzir minha vida e
sentir-me feliz”. Posso viver com determinação, alegria,
coragem, experimentando a vida de um jeito “sereno” e sóbrio.
Este, sem
dúvida, é o melhor caminho para quem está bem e em paz consigo
mesmo e com o mundo a sua volta, sentindo-se uma intensa
sensação de plenitude, capacidade e força.
É a postura
de quem quer viver e gozar a imensidão de um universo com seus
inúmeros desafios e prazeres, como se entrasse em um verdadeiro
êxtase de escolha, renovação, dignidade, sobriedade e acima de
tudo, responsabilidade. Reintegra sua auto-estima, seu
auto-respeito e, por mais incrível que possa parecer, vai se
transformando em uma nova pessoa, emocionalmente madura e
espiritualmente evoluída e ainda que tenha caminhado por trechos
tão difíceis e pedregosos, descobre que a recuperação pode ser
vivenciada com alegria, sabedoria e porque não dizer, com grande
prazer.
E de peito
aberto vai seguindo, se abrindo, enfrentando vigilante a sua
nova vida, sem pressa, pouco a pouco, a cada dia e a cada 24
horas. _______________
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SEDUÇÃO! No carnaval:
fascinação!
®
Por Leonardo Ramalho
Meu primeiro carnaval sóbrio
foi em 1988... Nossa! Jamais havia me divertido daquela
forma até então. Vivi novas sensações, emoções encantadoras
e mágicas. O novo se apresentou diante de mim como algo
radiante e belo. Senti a verdadeira alegria brotar dentro de
mim. Minha alma degustava o sabor do contentamento.
Dancei e pulei frevo como
jamais havia feito antes... Descendo e subindo as ladeiras
de Olinda, sob o batuque de marchas carnavalescas, senti meu
corpo vibrar em harmonia, meus olhos brilhavam em festa
apreciando com lucidez o ritmo fascinante e sinuoso de belas
mulheres, que sob o calor do verão, exalavam perfumes que
passeavam em seus corpos como o orvalho acariciando uma flor
ao amanhecer...
Jamais havia descoberto algo
tão deslumbrante! O belo se permitia dançar comigo como um
par perfeito!... Descobri naquele carnaval que a cervejinha
havia me roubado por anos a fio a sensibilidade e a
serenidade dos melhores momentos da minha juventude... ”. É,
meu primeiro gole de agora por diante será o da sobriedade e
da beleza”. Disse para mim mesmo com determinação e
concluí: “agora entendo e desejo somente a embriaguez pela
beleza e pelo amor e que isso só é possível tomando o
primeiro gole da sobriedade a cada 24 horas”!
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